PALAVRA DO PRESIDENTE
Discurso de
Guilherme Lima,
Presidente da ANCHEGAB,
por ocasião do 8º CHEGAB
em Macapá/AP de 28 a 30/09/2011
Permitam–me saudar a todos e a cada um dos Congressistas, na pessoa da nossa Diretora-Adjunta, a dinâmica e incansável professora, ALICE FERREIRA DA GAMA.
Espera a Diretoria da ANCHEGAB e a Comissão Organizadora deste Congresso, que ao final do evento tenhamos contribuído para o aperfeiçoamento e aprimoramento de nossas atividades.
SENHORAS E SENHORES:
Sejam minhas primeiras palavras para agradecer a hospitalidade do amapaense que mais uma vez recebe a todos nós com especial carinho.
Mirando Macapá, pergunto-me: que outra Capital foi abençoada com essas águas do Rio Amazonas? Que outra Capital de Estado brasileiro tem esse privilégio? Essa situação desperta em nós uma apaziguante sensação de continuidade, impregnada de esperança no futuro da humanidade...
Estar em Macapá e neste ambiente, é para muitos de nós a renovação da alegria do reencontro e para outros tantos, certamente, será a oportunidade de construir novas amizades. Não podemos olvidar que “é sabido que a vida é a arte do encontro embora haja tantos desencontros pela vida.”
Todas as vezes em que aqui estive fui excepcionalmente bem acolhido e não será diferente para com nenhum dos senhores que poderão ainda, como bem sugere o Desembargador GILBERTO PINHEIRO, no poema “Ser Caboco”, se fartarem com sua rica culinária, “saboreando açaí com ou sem açúcar, ou em forma de pirão, com camarão e pirarucu assado. Comer pato no tucupi, maniçoba e tacacá. Apreciar uma caldeirada de tucunaré, filhote, piramutaba ou dourada.
Senhoras e Senhores:
Se para existir basta ter sangue nas veias e ar nos pulmões. Para viver é preciso se lançar na vida, mergulhar-se e seguir o curso. Aprender implica em se apropriar do conhecimento e praticá-lo. Viver implica aprender e, para ser um eterno aprendiz, é preciso se desafiar a conviver com as diferenças e ter a humildade para reconhecer a própria ignorância e as próprias possibilidades.
E esse desafiar-se passa pelos quatro pilares da educação que estão fundamentados no: APRENDER A CONHECER, a FAZER, a VIVER JUNTOS e a SER.
1. Aprender a conhecer – É adquirir os instrumentos da compreensão. É o exercício do pensamento, da memória, da atenção e da reflexão;
2. Aprender a fazer – É agir no contexto que nos envolvemos; fazendo-se necessários o desenvolvimento da iniciativa e o gosto pelo risco articulado à competência técnica;
3. Aprender a viver juntos – é desenvolver o espírito de tolerância para melhor entender e responder adequadamente a humores, temperamentos, motivações e desejos de outras pessoas; é descobrir progressivamente o outro e permitir-se participar de projetos comuns;
4. Aprender a ser – É se conhecer para conhecer os demais. É ter o livre arbítrio para elaborar pensamentos autônomos e críticos para formular os próprios juízos de valor e agir com diplomacia e ética nas diferentes circunstâncias da vida.
Em sociedade tudo aquilo que não for considerado PADRÃO é DIFERENTE.
Nesse cenário imaginário, acaba-se por isolar segmentos e setores que não correspondem a essa imagem. É dessa forma que as diferenças adquirem conteúdos negativos, ratificando a falsa sinonímia entre desigualdade e diferença.
O processo de exclusão social não age de forma aleatória, passa a ter rosto e identidade. É étnico-racial, regional e cultural, pune-se de forma distinta, precisa e focalizada àqueles que não estão incluídos no PADRÃO cultural, os quais são estigmatizados como DIFERENTES – sejam eles indígenas, quilombolas, pessoas do campo, pessoas da periferia, negros, brancos, gordos, magros, pessoas com deficiências, pessoas com HIV, entre outros.
Essa diversidade de culturas se depara com um modelo educacional cujos parâmetros não reconhecem o direito à diferença como um conteúdo pedagógico e social. A ESCOLA não se educou para acolher a diversidade, mas isto só será possível se mudarmos a forma de nos educar.
Mudar a forma de nos educar significa os segmentos sociais aceitarem a diversidade, o que implica em reconhecer o direito à diferença, em reconhecer o outro como parte integrante do processo histórico-cultural, mas a escola formal, ainda hoje, muitas vezes, nega essa possibilidade.
POR ÚLTIMO, chegamos à terra dos Marechais e de Graciliano Ramos, Maceió – Alagoas, onde, foi criada, a primeira representação estadual da ANCHEGAB.
Nelson Mandela nos ensina que “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta jamais extinta”.
Na Escola da vida, acolher o outro, é respeitar as diferenças; é apostar numa convivência social em que haja respeito - ao modo de ser de cada indivíduo; aos diversos pontos de vista, às interpretações, às visões e às especificidades de cada cultura, transformando sua valorização em propósitos éticos, onde todos possamos aprender a conviver e viver bem com as diferenças. Aliás, muito feliz o nosso Presidente Emérito, Samuel de Almeida Lima, que em seu livro: “Gestão do Conhecimento – Poderosos Ativos para as Empresas” recomenda, com muita propriedade, que a diversidade enriquece a organização, sugerindo o exercício de aceitar as pessoas como elas são, com suas diferenças de personalidade e de atitude, ou quando divergem em matéria de opinião.
Viver e aprender o desafio de conviver com as diferenças é superar a indiferença, que é a negação e o desinteresse pelo outro. Promover a igualdade é superar a desigualdade. Diferença e igualdade representam o polo positivo na promoção da justiça social.
A inclusão social é para todos. O mundo necessita urgentemente de cidadãos éticos, dotados de espírito crítico e cooperativo, qualidades que só brotam do convívio com a diversidade. Diferenças existirão sempre, e é inevitável não conviver com elas. Mesmo com tantas diferenças existentes, uma coisa é certa, a Constituição Federal nos brindou com os mesmo direitos e deveres, tornando-nos cidadãos relativamente iguais.
Caros congressistas a importância desse tema foi, não faz muito tempo, matéria de reflexão, publicada No Diário de São Paulo e em homilias na Igreja, com base na vivência de um psicólogo ao realizar sua tese de mestrado em uma Universidade de São Paulo. Ele “virou” gari durante oito anos e varreu as ruas de uma das maiores universidades do país para concluir sua tese de mestrado sobre “invisibilidade pública”. Em suas observações constatou que a maioria dos trabalhadores braçais são “seres invisíveis”, ou seja, a percepção humana do outro não os alcança.
Sua existência, como gari, foi ignorada, pelos seus amigos e professores, que esbarravam nele, sem se desculpar, como se tivessem esbarrado num poste, pois não o “viam”. Uma vez precisou entrar no prédio onde estudava, com uniforme de gari, passou na frente de todos seus conhecidos, mas ninguém o enxergou. Ficou atordoado pela sua “não existência”, e chorava quando voltava para o seu mundo real. Descobriu que um simples “bom dia”, que nunca recebeu como gari, pode representar uma lufada de vida e de esperança na existência de uma pessoa.
Confesso que a experiência desse homem tocou em minha alma, pois me levou a enxergar nossas doenças sociais, fato que também ocorreu com o reverendo que proferiu a homilia, levando-o a afirmar como, somos, muitas vezes, iguais aos professores e amigos desse universitário, com um olhar seletivo.
“Ser ignorado talvez seja a pior sensação que existe para um ser humano”, afirma o universitário pesquisador. “Não é o ódio o contrário do amor, mas a indiferença. Nossos olhos estão acostumados a enxergar o belo, a valorizar o esteticamente apresentável, a granjear amigos que apresentam qualidades morais adequadas, que sejam limpos, decentes, bem casados, pessoas bem resolvidas, que professem nossa fé e nos façam bem. Não raro, somos levados a enxergar pessoas que têm vitórias para contar”. O moço da pesquisa mudou depois de passar por aquela traumática experiência existencial: deixou de lado suas doenças burguesas, tornou-se amigo daquela gente pobre da periferia, passou a freqüentar suas casas e nunca mais deixou de cumprimentar um trabalhador.
Nossas funções de Chefe de Gabinete nos possibilitam exercitar, inúmeras vezes, essa habilidade, no nosso dia-a-dia. Enquanto pessoas e chefes de gabinete, temos a obrigação de estarmos atentos a esse tema e suas decorrentes. Precisamos estar alertas e cumprimentar, respeitar, não discriminando as pessoas pelas suas funções, como: as donas “Marias” que fazem o cafezinho do escritório, os “Sebastiões” que abrem o portão do prédio e os “Beneditos” que varrem o chão.... todos esses corriqueiramente homens e mulheres invisíveis, mas que fazem parte do nosso cotidiano.
Meus amigos:
“Que o Rio Amazonas possa se orgulhar da gente como a gente se orgulha dele.”
Muito obrigado.!
Guilherme Lima
Presidente da ANCHEGAB
